A riqueza, ao contrário do que muita gente julga, não é suficiente para nos dar a felicidade.
Pode uma família possuir abundantes meios de fortuna, ter posses para adquirir quanto precise ou apeteça, gozarem excelente saúde todas as pessoas que a constituem: mas, se estas se não estimarem, se não forem unidas, se a desarmonia as indispuser a cada passo, se entre elas houver discórdias frequentes, essa família, apesar da sua riqueza, não pode ser feliz. Pode, pelo contrário, uma família pobre, não obstante a escassez de seus recursos, gozar de uma relativa felicidade, desde que os seus membros se conformem com a sua pobreza, se estimem sinceramente, se compreendam e se auxiliem uns aos outros.
Nada mais simpático, na verdade, do que uma família unida, ligada pelos mesmos sentimentos de amizade e dedicação, e trabalhando harmonicamente para o mesmo fim. Nada mais deplorável, pelo contrário, do que uma família desunida, dando aos estranhos o lamentável espectáculo de vergonhosa desarmonia.
A maior parte das vezes é a ambição que dá causa a essas discórdias. Questões, por exemplo, de partilhas de bens deixados pelos pais, dão muitas vezes motivo a malquerenças entre irmão que anteriormente, em vida dos pais, viviam na melhor harmonia.
Não se entendendo, recorrem então à Justiça, para que ela faça aquilo que eles poderiam e deveriam ter combinado à boa paz, mas que, por ambição quase sempre, não souberam ou não quiseram fazer.
A intervenção da Justiça é dispendiosa: e o resultado dessa intervenção é terem os desavindos irmãos de herdar menos, ficando a detestar-se mais.
Quanto melhor não seria que essa partilha tivesse sido feita amigavelmente, ainda que algum dos herdeiros viesse a ficar levemente prejudicado em relação aos outros.
«Mais vale ruim acordo que boa demanda»
Castilho, Leituras da 4ª Classe, Ano lectivo 1948-49
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