sexta-feira, 14 de novembro de 2008

DA DOR DA FOME À DOR DO LAR…





De ar rufia e olhar travesso, rosto sardento de onde sobressai o nariz arrebitado, inconfundível, é o R... Desconfiado por natureza, entrega-se sem reservas quando encontra sinais de confiança. São catorze anos apenas, mas é no olhar que lê a alma de cada um de nós. Tenta ser gente, ser grande, ser forte… Coração de Menino!

Espantosa a semelhança com a figura já gasta do nosso mais longínquo filme, onde um herói de palmo e meio, que adormece ao colo do Pai, sai à rua com a determinação de um homem que vai encontrar a solução para todos os jantares de mesa vazia, para todas as calças orgulhosamente remendadas, ou não fosse o dom das mãos de fada da Mãe mais linda a costurá-las com pedaços de Céu e fios de Ternura.

Nesse tempo, por todo o mundo, inúmeros cineastas aplicavam a infalível receita do sucesso de bilheteira que fazia as delícias de corações sensíveis que, à socapa, se emocionavam com aquela história tão própria da vida real, em que a irreverência daqueles pequenos rostos sardentos mais não queria que esconder a dor de uma infância sofrida, uma mesa sem pão, uma sacola sem livros… Ah! Mas o coração, esse, estava cheio de Amor e de Sonhos.

Hoje, com a mesma figura, a mesma força suportada pela fragilidade escondida, o mesmo olhar, porém mais agressivo… As calças são novas, de marca e sem remendos, e a mochila, nova em qualquer altura do ano, está vazia de livros que ficaram em casa, num acto irreverente de quem finge afirmar que a escola “é uma seca”. Nada faz de vontade, nada aceita como bom, nada dá, nada quer… Já tem tudo!?!

Mera ilusão! Este pequeno Homem mais não é que um Menino grande à procura do colo onde encostar a cabeça e dormir em segurança. A segurança do Amor!

Num repente, serena-se-lhe o olhar, chegando mesmo a ser meigo, e inicia uma conversa calma e tranquila em que se expõe sem defesas, mostra-se feliz por estar ali a estudar, contudo não queria fazê-lo. Mas agora, perto da hora de regressar a casa, acha que foi bom ter vindo. Fala do futuro, foge da família, que parece vazia, do Pai que não vê, nem quer saber onde está, da Mãe, que finge desvalorizar, que o obriga a estudar, dos outros irmãos, os filhos, do padrasto que não deixa que nada lhe falte, da vida fácil, em que nada falta, dum futuro que é o dele e passa por uma escola onde se aprenda… mas nunca do Amor, dos Afectos, da Ternura ou do Carinho.

Inesperadamente surpreende-me! Fala da escola. Da primeira escola e do professor exigente, que a mãe ajudava a contornar quando não cumpria os seus deveres, da escola actual, em que ninguém se entende, do professor que fala para uma turma que não ouve, ocupada num barulho infernal, segura da impunidade do sistema, porque, como diz, “nada acontece”. Na sua mais genuína pureza, pouco condicente com a sua figura, diz-me:

- Os professores deviam poder puxar as orelhas aos alunos e reprová-los por mau comportamento!

Retorqui com admiração:

- Porquê? O professor não deve agredir o aluno.

- Não é uma agressão… é uma correcção! Se o fizessem uma vez, os alunos estavam calados e podia ouvir-se o que o professor dizia. Devia ser permitido. Não deviamos estar na escola só por estar. Eu preferia trabalhar, mas não posso. Pelo menos podia haver uma escola diferente, para aprendermos uma profissão desde cedo. Não gosto de estudar assim! Há matérias que são giras, mas não me interessam para nada… pelo menos é o que eu acho.

- Estou admirada – confessei. – Não esperava ouvi-lo dizer uma coisa dessas.

Passava já um bocado da hora de ir para casa. Arrumou os livros enquanto garantia que era aquilo que pensava e que, um dia, havia de ter a sua profissão e governar-se sem ter de trabalhar para outros. Era isso que queria e ía conseguir, porque não se importa de trabalhar. Despediu-se, prometendo que, se um dia fosse à televisão, haveria de dizer o que dissera ali:

- A escola assim não serve de nada!

Pequeno, arrogante, arruivado e sardento, esta figura já gasta de outros tempos, esconde hoje outra dor, a dor do Lar vazio e frio, onde o calor da fartura não aquece o coração, nem enriquece a alma.

Seria tão bom, por vezes, ter um pouco menos de fartura na mesa e um pouco mais de Família!

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