Chegamos a esta época do ano e, mais uma vez, me debato entre dúvidas e certezas, aceitação e revolta, coração e aparência... e paz, que era bom, não tenho! Nem lhe conheço a face. Recordo-me da infância, vivida entre gente de menos posses. Procuro e não encontro cartas para o Pai Natal, nem respostas do Pai Natal, nem agradecimentos ao Pai Natal... Que, coitado, não tem culpa nenhuma, já que na sua essência era um santo bondoso, que amava a Deus nos irmãos mais desfavorecidos, oferecendo às crianças a oportunidade de , pelo menos uma vez na vida, poderem sorrir para um brinquedo que não sonhavam ter.
Os meus Amigos e colegas de escola não tinham tantas coisas como eu... que também não tinha a loucura de coisas que se têm hoje. Alguns nem ceia tinham, se não houvesse alguém que, discretamente, facultasse algumas coisas para que não ficassem de barriga vazia.
Mas todos celebrávamos o NATAL!
À meia-noite, com frio ou não, com ou sem ceia, todos sorriam à chegada à igreja, para mais uma Missa do Galo. A fogueira aquecia as mãos, os pés e os corações de todos por igual.
O Menino Jesus, de manhã, teria deixado alguns presentes, que todos aguardávamos, mas nem todos tinhamos. Era estranho, mas ficávamos em silêncio sem comentar grande coisa a esse respeito. Parece que os princípios humanos da época nos dotavam da consciência de que os pobres não tinham prendas. Se fosse hoje, gritaríamos bem alto para que todos soubessem quem tinha tido mais presentes.
Naquela época, juntávamos dinheiro para ajudar a calçar os mais necessitados e sentiamos todos a orfandade dos que não tinham pai ou mãe. Se eles chorassem, choravamos todos. Todas as nossas zangas terminavam ao fim do dia!
Ficou-me na memória, sempre, um dos momentos mais difíceis dos Natais da minha infância. Nos meus sete anos de idade, juntamente com os meus irmãos, perguntávamos a um Amigo, a quem o meu pai ajudava e dava sempre alguma coisa, pois sabia que a falta da mãe o penalizava pela ausência do seu amor e pela vida desmoronada que o pai tinha desde que a mãe partira, o que tinha sido o seu Menino Jesus. E ele, modestamente e com voz calma, respondeu:
"- O meu Menino Jesus foram os vinte escudos que o vosso pai me deu ontem."
Aquilo doeu!
Não sei se dói às crianças de hoje, que pensam que o motivo da festa é o Pai Natal e os presentes.
Creio que nós, acreditando no Menino Jesus, e não no Pai Natal, no fundo sabíamos que eram os pais que davam os presentes.
Quando hoje se esconde essa realidade às crianças, duvido da legitimidade desse mistério. Fica-me sempre a ideia que se espalha de um Deus cruel que, na noite do seu aniversário, só se lembra daqueles que a sorte da vida já bafejou com bens materiais, esquecendo aqueles que só a Ele têm nesta noite.
Será correcto?
Numa época em que as crianças se tornam egoístas e consumistas por natureza e catalogam os seus amigos pelos brinquedos que têm, em que os próprios pais os impedem de partilhar com os outros os seus brinquedos... Que noite Santa é esta?
Não sei se era a influência das histórias que nos contavam, sempre com uma lição a aprender, ou dos textos dos nossos livros escolares, sempre a mostrar-nos um mundo que nem sempre é justo...
Eu nunca esqueci aquele dia!
Será que esses meninos são os mais "ricos" e os que efectivamente são visitados?
Nota: O nosso Amigo é, hoje, um homem com uma vida boa. Note-se que não disse opulenta!













