Como hoje é dia 18 de Março, logicamente, amanhã é dia 19. É dia do Pai!
Pela décima oitava vez na minha vida estou dispensada da parte material desta data.
Não que alguma vez tivesse tido a parte material como ponto de agenda. Nunca foi o mais importante. Não para o meu pai.
Pela primeira vez partilho este momento...
São já dezoito anos e passou tão pouco... e parece uma eternidade...
Não preciso do dia de amanhã para o lembrar, como nunca precisei dessa ou de outras datas para ser presente na sua vida.
Hoje, como sempre, o seu conselho dirige as minhas decisões.
É impossível escolher rumos e definir objectivos, ou tomar posições, sem revisitar a memória e escutar o seu conselho sábio, o conselho de quem nunca escondeu fraquezas nem erros para se agigantar.
O seu tamanho real escondia uma alma enorme.
Não é possível habituarmo-nos à ausência das pessoas que são verdadeiramente importantes nas nossas vidas. Um simples bom dia ou boa noite, um olhar, poderiam dar-me um conforto inigualável.
Nada disto se prende com palavras que por vezes ficam por dizer a quem mais importa e um dia já não podem ser ditas.
Não!
Graças a Deus tudo foi dito. O bom, o mau... tudo o que deve ser dito para que o Amor perdure.
É Saudade mesmo!
Foi por recordá-lo tantas vezes que há dias, neste espaço, coloquei um dos seus poemas favoritos, do seu mentor e mestre José Régio. Sim, porque também ele escrevia coisas magníficas e que este vulto da nossa poesia leu em primeira mão.
Sei que um dia esta Saudade acaba. Mas até lá há que viver com ela.
Como consolo, terei sempre a lembrança das nossas conversas e dos nossos passeios pelo campo, olhando as sementeiras e ouvindo a "Natureza a parir", quando os meus passos cabiam duas ou três vezes nos teus e tentava seguir-te colocando os meus pés nos sulcos que os teus deixavam. Tenho ainda os almoços intermináveis aos Sábados e Domingos, porque estávamos todos juntos e "à mesa ninguém se faz velho". O riso franco, a gargalhada contagiante, as lágrimas de alegria e o choro magoado e sentido... a coragem de não ter vergonha de ser humano e exteriorizar o que nos vai na alma.
E quando os teus sermões terminavam com os magníficos relatos das tropelias e desacatos da tua infância e juventude, bem mais elaborados que os nossos, e entre risos a discórdia se dissipava...
Os teus Cristos... Quando vejo essa imagem Magnífica, percebo porque te comovia. E cada vez mais te entendo e aos poucos se me torna impossível contemplá-lo sem sentir o mesmo.
Sei que sempre estarei contigo e que sempre estarás comigo.
Continuarei a tentar viver com a mesma verdade com que me ensinaste a ser eu. De facto, quanto mais verdadeira é a nossa imagem, mais profunda é a nossa vivência e mais dolorosos os espinhos dos caminhos. Mas só assim vale a pena.
Que junto ao Pai tenhas um feliz dia, "pai".