quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

INESPERADAMENTE, AS PALAVRAS CERTAS VÊM AO NOSSO ENCONTRO!

Todos nós coleccionamos, ou pelo menos era costume coleccionarmos, uma infinidade de objectos e papeis que, religiosamente, constituem o espólio da nossa história pessoal.
Com o passar do tempo vamos tendo pela casa diversas caixas, gavetas e armários com coisas tão variadas que já nem nos lembramos ao certo se ainda as temos.
Invariavelmente, quando precisamos de procurar alguma coisa que há muito não vemos, acabamos por encontrar outras que chegam a ser surpreendentes.
Por estes dias, ao procurar uns cadernos antigos, encontrei uma das muitas caixas onde se esconde, ou guarda, a minha história.
Quase fiquei chocada com a surpresa de encontrar um postal... sim, um postal ilustrado, da Nazaré, de que não me lembrava e me foi escrito por um colega de curso, durante as nossas primeiras férias de jovens engenheiros.
Parece tolice, não é? Que interesse pode isso ter? Que pode haver de extraordinário num postal?
Muita coisa e, provavelmente, nada do que se possa imaginar.
Em três ou quatro linhas, um colega que, finalmente, se tornara um Amigo, consolidava e confirmava assim uma grande Amizade, que se supunha longa. Dessas que não têm tempo nem espaço.
Este Amigo, que começara por ser um colega pouco simpático, tornara-se repentinamente mais aberto e, talvez por isso, mais acessível, revelando-se um ser humano atento e disponível para ajudar os outros.
Para mim, pelo menos, foi assim.
No final daquele ano lectivo, o último, como era hábito dos meus meses de Junho, agendei um sábado na Feira do Ribatejo, em Santarém, ainda no antigo e místico espaço dentro da cidade.
Lancei o desafio e alguns dos meus colegas também foram. Ele foi um deles!
No dia marcado, apanhámos o comboio e seguimos viagem.
Por fim, quando a tarde já ía alta, disse-lhes que não regressaría a Lisboa àquela hora, pois iría à Corrida de Toiros dessa tarde.
Ninguém quis ir, claro!
Mas ele resolveu experimentar uma coisa que dizia não apreciar, tentando outro ponto de vista. Ficaram mais dois ou três.
O tempo passou e, quando recebi o dito postal ( eu tinha feito e distribuído uma lista com os contactos de todos ), verifiquei que ele se tinha tornado assíduo das Praças de Toiros.
Com o devido respeito por quem é contra, nós gostávamos!
Tudo isto parece não fazer sentido nem ter importância, não fora este Amigo, passado alguns anos, inesperadamente, ter-nos deixado, vítima de meningite.
Foi um momento difícil!
Para trás ficava o início de uma boa Amizade, a família que formara desfeita e a ter de seguir em frente e a certeza de que a vida não nos pertence.
Muitas vezes o recordo e tento imaginar como foi para esta família, para o seu filho, encontrar o caminho. Que imagem terá do pai que mal conheceu?
Encontrar este postal trouxe-me à memória uma quantidade de lembranças e emoções e uma saudade enorme.
Mas, mais do que isso, a certeza do que este Amigo esperava de mim, a certeza que ele tinha de que eu não desistiria perante os obstáculos...
Se não for por mim, que seja por ele. Não há tempo nem lugar para desistentes.
A vida tem de ser vivida!