Mas não é correcto!
E, se nalguns casos pode não ter importância, noutros, se tivermos consciência, seremos eternamente atormentados.
O que me traz aqui, com toda esta conversa, é o facto de há algum tempo ter sido tremendamente injusta com alguém que muito estimo e admiro e que nunca duvidou da minha amizade, manifestando sempre sem reservas toda a Amizade, respeito e confiança que eu lhe merecia.
Há cerca de 3 anos, 3 anos e meio, um amigo que conheci por questões profissionais, e cuja relação profissional deu lugar a uma grande e boa Amizade, e que manteve comigo uma actividade relacionada com a manutenção de jardins e piscinas, o que acrescentava uns cobres aos nossos rendimentos, à época largamente abalados pelo encerramento da empresa em que trabalhávamos, sofreu um rude golpe: dignosticaram-lhe um leucemía rara, que afectava o sistema nervoso.
O facto é que, mesmo tendo arranjado trabalho, continuámos com a dita actividade, o que exigía bastante de nós, tanto em termos de tempo como fisicamente. De um dia para o outro ele passou a ter pouco tempo, achar tudo cansativo, deixar as tarefas a meio porque lhe doíam os braços e as costas... enfim, para um rapazinho substancialmente mais novo que eu era muita fraqueza para tanto sangue novo.
Contudo, a sua vida continuava naturalmente, com a rotina habitual e tudo na maior... pensava eu, que entretanto dizia com os meus botões que tinha arranjado um sócio que se cansava muito facilmente, e por aí fora...
Cansada de me desdobrar para atender a todos os fogos, propus-lhe acabar com tudo, pois ele não tinha tempo e eu também começava a não conseguir chegar a todo o lado, andando já a cortar relva à luz da lua. Ele concordou, ou aceitou, fizemos contas e acabámos com tudo.
Pouco tempo depois, tinha ele andado a fazer exames médicos, encontrámo-nos para almoçar. Fiquei assustada. Era verdade o que me havia dito pelo telefone. Em poucos dias perdera 10 Kg e estava magríssimo, sem motivo aparente. Segundo os médicos, era stress...
Tentei, a todo o custo, convecê-lo a ouvir outra opinião, lembrei-lhe o caso de um amigo, que em tempo comentara com ele, e que tinha uma situação idêntica que acabou num linfoma, hoje tratado, mas que poderia ter sido fatal, se não tivesse ouvido outras opiniões. Também ele não tinha nada e era o stress que o fazia perder peso... Nem assim o convenci.
Poucos meses depois, 2 ou 3, telefonou-me e contou-me da sua doença. Se eu já me sentia mal por tê-lo julgado com pouca vontade de trabalhar, agora estava de rastos. Meu Deus, como podía ter sido capaz de julgá-lo dessa maneira? Agora estava ali, confiando em mim, na minha capacidade de ajudá-lo a resolver problemas, informando-me da sua doença e das graves consequências que teria na sua vida, em nenhum momento duvidando da minha amizade incondicional. De peito aberto, contava-me a sua história e pedia-me ajuda.
Fomos mantendo contacto, não tanto quanto deveria ser, pois entre tratamentos e internamentos as debilitações foram muitas e ficava sempre algum constrangimento no ar. Afinal, agora, ele estava fisicamente afectado, perdera a coordenação motora e praticamente não via, situação claramente irreversível. O auto-transplante curara o tumor, mas os danos cerebrais eram irreparáveis.
Há dias, após o Natal, falei com ele. Estava ao corrente das suas actividades e sabia que necessitava de alguém para o ajudar. Liguei-lhe para saber se tinha resolvido a situação e tratei de promover o contacto com alguém de confiança.
Fiquei muito feliz por ele. Tinha feito um curso de informática para invisuais e voltara a trabalhar, na mesma empresa, desenvolvendo o Sistema de Gestão da Qualidade.
Fraco, ele?
Que vergonha!
Se alguém aqui é fraco, sou eu!
Parabens Nuno, és um Grande Homem e um Grande Amigo.
